Destruição da Amazônia pode afetar produção de alimentos

Foto: Reprodução - Nenhuma violação de direitos autorais pretendida

Foto: Reprodução - Nenhuma violação de direitos autorais pretendida

Imagine destruir uma área equivalente a cidade de Belo Horizonte três vezes, em único mês. É esse o ritmo da devastação da Amazônia brasileira registrado somente em junho deste ano, quando foram totalizados 926 km² de floresta perdida, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Pesquisadores alertam que se as 'veias' abertas das destruições não forem 'estancadas', as consequências vão de mudanças climáticas severas a perda de capacidade para a produção de alimentos.

Os números do desmatamento acumulado nos últimos 11 meses, de agosto de 2020 até junho de 2021, são ainda mais assustadores. Ao todo, foram 8.381 km² destruídos, o que significa um aumento 51% em relação ao mesmo período anterior.

De acordo com a socioambientalista Muriel Saragoussi, a frequência de fenômenos extremos da natureza, como a cheia e seca, por exemplo, já são efeitos decorrentes do desmatamento da Amazônia.

''Nós estamos assistindo a quantidade de eventos extremos ocorrendo no clima. No Sul do país, a falta de água é também consequência do desmatamento na Amazônia, que interfere diretamente nas chuvas no Sul e Sudeste do país, e no norte da Argentina" , explicou

Entretanto, para Saragoussi, o pior ainda está por vir, isso porque os recordes sucessivos de desmatamento podem fazer com que a floresta perca a capacidade de restituir uma área destruída.

"A longo prazo, nós temos um problema muito sério de que podemos chegar a um ponto de 'não retorno', quando a Floresta Amazônica comece a encolher, nós já estamos vendo sinais disso em alguns lugares, onde a floresta, ao invés de capturar gás carbônico, está lançando esse gás na atmosfera", destaca.

De acordo com a socioambientalista, os estragos provocados pelo desmatamento poderão prejudicar a produção de alimentos no país. "A destruição tende a acelerar as mudanças climáticas, que poderá gerar dificuldade para a produção de alimentos, ou seja, poderemos pagar isso com a vida de brasileiros".

O que explica a alta do desmatamento e como reverter esse cenário?

Para a pesquisadora, o aumento da devastação da Amazônia se dá, principalmente, por uma mentalidade de que o desmatamento está liberado e que a Amazônia tem de ser utilizada por meio da devastação para a transformação de suas terras em pastagens, por exemplo. Essa ideia, inclusive, é bastante encorajada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (Sem partido).

"Há um pensamento de que quem desmatar não vai ser punido, e realmente é o que está acontecendo, é uma política do atual governo. Há também a expectativa de que as terras griladas sejam legalizadas, inclusive o PL 490, pode dar brecha para que essas terras alvo de grileiros sejam legalizadas", ressaltou.

Para reverter esse quadro, é preciso efetivamente uma mudança radical de visão sobre o modelo de desenvolvimento. "Precisamos romper com essa visão de que precisa desmatar a Amazônia para gerar riqueza, ao contrário, nós somos capazes de gerar mais riqueza utilizando a floresta e a biodiversidade. Precisamos de políticas públicas, investimentos públicos e privados, ao passo em que os desmatadores sejam efetivamente punidos", finalizou a socioambientalista.